A (verdadeira e completa) história da guitarra.

Muitos textos tratam a história da guitarra como um evento iniciado em 1950, quando Leo Fender lançou a Esquire, primeira guitarra elétrica de corpo sólido registrada. Mas muito tem a se falar sobre os séculos e milênios antes disso. Mas sempre tenhamos em mente que este texto nunca estará completo. Constantemente, faço descobertas e atualizo seu conteúdo.

A guitarra é um instrumento que tem seu embrião fecundado há milhares de anos atrás, com sua história passando pela Itália, Grécia antiga, Mesopotâmia e nas cavernas da França.

A própria Esquire, concebida (mas nem tanto) por Leo Fender, era um instrumento inspirado em outros anteriores, com algumas adaptações e atualizações.

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Em 1947, o então mecânico de motos Paul Bigsby se uniu ao guitarrista Merle Travis para criar uma guitarra que tivesse menos feedback, gerado pelos captadores instalados nas guitarras acústicas e que tanto incomodava os músicos.

Essa guitarra era semi-sólida e, acredita-se, o seu modelo tenha inspirado Fender a desenvolver suas guitarras.bigsby-travis

A própria Gibson também é resultado de uma série de adaptações de instrumentos, inclusive da própria Bigsby&Travis. O braço angulado, a ponte alta e o top escavado foram retirados do violino.

O primeiro instrumento elétrico construído num corpo sólido é brasileiro e conhecido como “Pau-elétrico”. Criado pela dupla baiana Dodô e Osmar em 1942, tratava-se de um braço de cavaquinho com o captador instalado no final da escala.

A corrida pela guitarra sólida se deve à necessidade de aumentar o volume do instrumento. Quando colocado um captador em um instrumento acústico, as frequências geradas excitam as cordas, criando uma espécie de realimentação. A corda excitada vibra, o falante reproduz essa frequência que excita novamente a corda, num ciclo interminável. Apesar da realimentação existir em qualquer situação de uma guitarra elétrica plugada, ela acontece muito mais facilmente em instrumentos acústicos plugados.

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Pensando nisso, Les Paul, em 1941, teve a idéia de captadores que não estivessem tão expostos às ressonâncias geradas pela acústica do próprio instrumento. Uma guitarra acústica serrada ao meio e um núcleo de madeira com 4×4 polegadas colado entre estas laterais, onde eram instalados os captadores e a ponte do instrumento.

Acredita-se que Leo Fender também se beneficiou desse projeto, unido ao de Bigsby&Travis, para criar sua Esquire, em 1950.

Muito do que temos hoje, com relação à guitarra elétrica, se deve à Eddie Durham, professor de Charlie Christian, que propôs colocar um captador numa guitarra. A idéia já tinha sido concebida por ele em 1931, mas somente 4 anos depois, integrando a Jimmi Lunceford’s band, Durham usou uma guitarra elétrica, fazendo covers de Harold Arlen’s Hittin’ The Bottle, em Kansas City.

Contemporâneo de Eddie, George Barnes foi o guitarrista que realizou a primeira gravação com uma guitarra elétrica no jazz. Foram registradas, em 1 de março de 1938, as canções Sweetheart Land e It’s a Low-Down Dirty Shame.

A idéia de colocar um captador numa guitarra, provavelmente, foi retirada de um lap steel chamado “Frying Pan”. Criado por Adolf Rickenbacker em 1930, foi o primeiro instrumento a ter um captador instalado.

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E isso só foi possível por que na Gibson, entre 1919 e 1924, trabalhou um engenheiro chamado Lloyd Loar, que foi quem concebeu a idéia e fez os primeiros testes com um captador eletromagnético.

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Antes dele, os Resonator eram os instrumentos que conseguiam produzir mais volume. Fabricados em 1920, primeiro pela National, depois pela Dobro, estes instrumentos têm um cone metálico instalado abaixo do cavalete.

dobro

A necessidade de aumento de volume surgiu no começo do século passado, com as big bands. Nelas, o som da guitarra ficava muito baixo no meio da enorme quantidade de banjos e mandolins. As guitarras acústicas, conhecidas como “True hollow body”, eram violões evoluídos, com algumas diferenças na construção. Elas existiram predominantemente antes do advento dos captadores.

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O instrumento que deu origem a essas guitarras é o violão. Este instrumento, como conhecemos atualmente, foi concebido definitivamente em 1856, pelo luthier italiano Antonio Torres.

torres

O violão de Torres é descendente direto da vihuela espanhola, que, por sua vez, descende de uma série de instrumentos e ideias. Ela é a primeira versão do que conhecemos por instrumentos “acinturados”.

 

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A necessidade da cintura surgiu a partir dos instrumentos acústicos comuns para a época (idade média, por volta do séc. 16) que tinham formato de meia pera, como o cistro e a cítola. Várias foram as tentativas até culminar na vihuela.

ALAUDEEsse formato de pera foi herdado do alaúde, que chegou na Europa através dos árabes e mouros, durante as invasões em 711 DC.

O alaúde surgiu entre os Sumérios, na Mesopotâmia, a aproximadamente 3000 AC, e foi um dos primeiros instrumentos a ter caixa de ressonância e braço, formando a estrutura que culminaria, milhares de anos mais tarde, no violão.

Seu precursor é a Kethara, um instrumento grego que é, basicamente, uma variação da lira com os primeiros traços do que se transformará em braço.

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A lira é, provavelmente, uma miniaturização da harpa. As primeiras eram feitas com ossos e tripas de animais e casc0 de tartaruga.

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A harpa, por sua vez, é a evolução do arco de caça. Primeiro instrumento de cordas construído pelo homem, o arco musical foi registrado em pinturas rupestres nas cavernas de Les Trois Freres, na França, há aproximadamente 13000 AC.d. Quando o caçador lançava a flecha, a corda do arco zunia em seu ouvido, produzindo uma nota musical. Daí veio a ideia de colocar várias cordas, com afinações diferentes, no mesmo arco, dando origem à harpa.

Na pintura abaixo, uma criatura meio homem meio animal, com uma miniatura de arco, usando a boca como caixa de ressonância.

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Há cerca de 35 mil anos, o mais antigo instrumento musical era entalhado em um osso de asa de abutre. A flauta em questão foi descoberta na caverna de Hohle Fels, no sul da Alemanha.

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Em 1995, o arqueólogo Ivan Turk encontrou um osso de urso em uma caverna da Eslovênia, e que ficou conhecido como a Flauta de Divje Babe. Turk datou o objeto de 43 mil anos atrás e sugeriu que fosse uma flauta usada por neandertais.

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Teoricamente, foi aqui que tudo começou…

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