O mito da blindagem – light version

A blindagem é praticamente uma unanimidade nos fóruns de luthieria na internet.

Com ela, tudo ficou fácil, pois qualquer problema com ruídos no instrumento é prontamente solucionado com um bom revestimento de material condutivo na cavidade de parte elétrica.

E a explicação é muito simples (e bonita de se ler): a blindagem gera uma gaiola de Faraday no instrumento, evitando interferências externas e, por consequência, qualquer tipo de ruído. blog_IMG_1525

Achei estranha e fascinante a facilidade com que a blindagem resolve todos esses problemas, mas algumas perguntas não saíam da minha cabeça:

1- Qual a origem dos ruídos do instrumento?

2- Por que o instrumento sofre interferências de ruídos externos?

3- Como a blindagem funciona?

4- O que é e como funciona uma gaiola de Faraday?

Essas perguntas me levaram a uma outra, que julguei mais importante: O que é e como funciona um captador?

Mas, diante de tantas perguntas, uma coisa é certa: a blindagem apresenta resultados positivos, porém apenas sob certas condições. O problema é que, quem decide fazer uma blindagem no instrumento, normalmente atira no que vê e acerta o que não vê.

Vamos começar a entender o problema, dando respostas às perguntas acima:

1- Qual a origem dos ruídos do instrumento?

Normalmente, ruído no instrumento tem 4 causas principais: baixa qualidade do captador, problemas no aterramento do circuito elétrico do instrumento, problemas no aterramento do circuito elétrico do equipamento utilizado e problemas no aterramento do circuito elétrico do próprio imóvel.

Existe uma quinta causa, que é o caso dos single coils. Muitos fazem blindagem certos de que o ruído dos single será eliminado. Isso jamais acontecerá.

O hum gerado por esses captadores é proveniente da própria concepção: bobinas simples geram ruídos. Com ou sem blindagem. A única maneira encontrada para eliminar o ruído do single coil foi eliminar o próprio captador. Em 1956, Seth Lover descobriu que uma segunda bobina cancelava o ruído de um captador de bobina simples. Foi assim que surgiu o humbucker. Acreditar que uma simples blindagem elimina ruídos de single coil significa cuspir em todo o trabalho pesquisado e desenvolvido por Seth Lover.

SethLover

2- Por que o instrumento sofre interferências de ruídos externos?

Os ruídos externos (quem nunca ouviu falar de amplificadores que transmitem jogos de futebol?) acontecem da mesma maneira para qualquer equipamento exposto a uma grande interferência. Por exemplo: ligue uma televisão e um liquidificador ao mesmo tempo.

Se houver chuviscos na televisão, é muito provável que qualquer outro equipamento de áudio ou imagem também tenha sido afetado. Nesse caso, também é muito provável que o problema esteja no circuito elétrico do imóvel, como fios de baixa qualidade ou aterramento ineficiente. Em outras palavras, na grande maioria das vezes, problemas com ruídos significam problemas com aterramento. E não vai adiantar blindar a televisão.

3- Como a blindagem funciona?

A versão popular é que a blindagem gera uma gaiola de Faraday no instrumento. Essa gaiola funciona como um isolante de interferências externas, impedindo que qualquer ruído entre no circuito da guitarra. Mas na verdade, a blindagem funciona como um mega aterramento no instrumento, pois a camada de material condutivo que reveste a cavidade da parte elétrica e dos captadores propicia um escoamento gigante dos negativos dos captadores para o negativo do jack e para o terra da ponte.

A fórmula mágica é a seguinte: quanto mais os negativos dos captadores conseguirem “sair” da guitarra (através do negativo do jack e do terra da ponte), melhor. A única coisa que a blindagem faz é facilitar esse tráfego de negativos pelo instrumento.

4- O que é e como funciona uma gaiola de Faraday?

blog_GAIOLA

Um site muito bom para entender a Gaiola de Faraday: http://www.futureng.pt/gaiola-de-faraday

“Gaiola de Faraday é a designação pela qual se tornou conhecida uma experiência efectuada por Michael Faraday, em 1836, para demonstrar que uma superfície condutora electrificada possui um campo eléctrico nulo no seu interior. Isso acontece porque as cargas se distribuem de forma homogénea na parte mais externa da superfície condutora, deixando de haver manifestação de fenómenos eléctricos no seu interior.”

Uma definição rápida é dada no site: http://quartzodeplasma.wordpress.com/2012/10/30/blindagem-eletrostatica/

“A gaiola de Faraday é um invólucro metálico que impede a entrada ou a saída de um campo eletromagnético.”

Assista ao vídeo, no link abaixo, e preste bastante atenção na demonstração de um experimento sobre a gaiola de Faraday:

Gaiola de Faraday

Dois pontos importantes devem ser observados:

1- Para que a gaiola surta efeito, é imprescindível que o objeto emissor ou receptor de ondas eletromagnéticas esteja realmente localizado no interior da gaiola. Apenas dessa maneira, ele estará isolado do meio externo.

No caso da guitarra, o objeto emissor de ondas eletromagnéticas é o captador e ele não está dentro da gaiola de Faraday, já que a blindagem fica abaixo do captador.

blog_Blindagem

2- Se a gaiola de Faraday funcionasse, seria neutralizada imediatamente com o contado das mãos nas cordas ou na ponte do instrumento. Todo o isolamento gerado pela gaiola de Faraday seria rompido e o nosso próprio corpo seria o novo condutor de todo tipo de interferências para os componententes elétricos da guitarra.

Se repararnos no vídeo apresentado, veremos que o celular fica completamente incomunicável apenas enquanto o professor não encosta nele. A partir do momento em que o professor toca no aparelho, ele passa a funcionar normalmente, ou seja, passa a receber os sinais eletromagnéticos, mesmo estando dentro da gaiola. Isso acontece porque, ao ser tocado com as mãos do professor, o próprio se torna uma antena para o celular, recebendo as ondas eletromagnéticas e repassando para o aparelho. No caso do instrumento, ao encostar nas cordas, o músico anularia a função da gaiola de Faraday, pois ele seria a antena que receberia as ondas eletromagnéticas e as enviaria fisicamente (através do contato com as partes metálicas, dos fios e das soldas) para o interior do instrumento.

Mais um ponto importante: a gaiola de Faraday só funciona com emissores ou receptores de ondas eletromagnéticas. Os potenciômetros não são nem uma coisa, nem outra. A blindagem na cavidade da parte elétrica não vai “limpar” o sinal para que ele seja passado adiante. A blindagem não limpa sinais. Ela anula sinais.

Mas, se não existe gaiola de Faraday no instrumeto, por que a blindagem funciona?

Para responder essa pergunta, precisamos entender o que é e como funciona um captador.

O captador é, antes de qualquer coisa, um dispositivo gerador de eletricidade com corrente alternada.

De uma maneira superficial, é formado por uma bobina e imãs que podem estar na parte interna ou logo abaixo da bobina.

É gerador de corrente alternada porque os pulsos elétricos, gerados na mesma velocidade de vibração da corda, ora caminham para uma direção (uma das 2 pontas do fio da bobina), ora caminham para a direção oposta (a outra ponta do fio).

O fio que é designado positivo é conectado ao terminal positivo do jack e o fio negativo é conectado ao terminal negativo do jack.

Porém, o amplificador não faz um aterramento pleno do negativo do captador, sendo necessária a adição de um fio que leva esse negativo para a ponte do instrumento. Quando encostamos nas cordas, todos os ruídos cessam. Isso acontece porque nós somos o verdadeiro terra do instrumento. Ao encostar nas cordas, todo excesso de negativos existente no circuito elétrico saltam para as nossas mãos.

Quando são usados fios de baixa qualidade, os negativos não são completamente transportados para o aterramento da ponte e sobram no circuito elétrico, gerando os indesejáveis ruídos.

A blindagem funciona como uma espécie de piscinão, impedindo que haja acúmulo de negativos no circuito do instrumento.

Quando nos preocupamos em planejar a parte elétrica e utilizar fios de alta condutividade e estanho de alta qualidade, os negativos dos captadores são transportados corretamente para a ponte e para o jack do instrumento, transformando qualquer blindagem em redundância.

blog_Aterramento

A blindagem acontece por que, ao invés de ser refeita toda a parte elétrica com componentes adequados, o indivíduo reveste todas as cavidades do instrumento com material condutivo, imaginando estar criando a gaiola de Faraday, quando, na verdade, está intensificando o sistema de aterramento do instrumento, só que da maneira errada.

Para terminar este texto, deixo uma última pergunta, para reflexão:

Por que uma guitarra custa alguns milhares de reais, utiliza acessórios caríssimos e tecnologias que nem imaginamos, mas não possui uma simples blindagem?

blog_IMG_0615Gibsob Les Paul Standard

blog_Image2Gibson Les Paul Studio

blog_thunderbirdGibson Thunderbird Nikki Sixx

fender-300x225Fender reedição 56

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23 comentários sobre “O mito da blindagem – light version

  1. Ola pessoal, eu percebi que a ligação de varios pedais , mesmo que somente um seja utilizado, tambem gera ruído. Percebi tambem que um pedal redutor de ruído de segunda linha que testei, retira o ruído enquanto nao se toca mas introduz ruído na hora que se toca. Consegui menor nivel de ruído usando somente um pedal e sem pedal redutor de ruido.

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  2. Outra questão: instrumentos TOP de mercado, vem sim com a blindagem de cobre: baixos Fodera de 10mil dólares e baixos Tobias por exemplo. Todos os baixos e guitarra Fender da série Deluxe, os Yamaha mais caros vem de fábrica com blindagem de tinta condutiva de boa qualidade….. ou seja, mais uma vez você falou bobagem.

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    • Fabão, acho que você não entendeu vários pontos deste artigo e me vi obrigado a responder seus comentários, na esperança de conseguir diminuir um pouco o tom religioso do papo.
      1- A teoria não é minha. Nada do que foi escrito veio da minha cabeça. Pesquisei em fontes, principalmente, acadêmicas e converti para uma linguagem mais usual.
      2- Nem eu nem você estamos afirmando que 100% dos instrumentos vêm blindados ou não de fábrica, certo?
      3- Este artigo não é sobre cabos e sim sobre parte elétrica de instrumentos.
      4- Vou ser o mais direto possível: o conceito de blindagem em instrumentos musicais é falso. Não existe blindagem em instrumentos musicais. E quem afirma isso é a física.
      5- Eu não sei lidar muito bem com falta de educação. Caso você esteja disposto a ouvir e ser ouvido, sem achar que isso é um desrespeito, o farei com prazer. De outra forma, apenas fingirei que você não existe.
      Abraços.
      Edilson Hourneaux.

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      • Continuo sem entender. No cabo pode ser chamado de blindagem. No instrumento, não. No cabo faz todo sentido. No instrumento, não. Mas não vamos falar de cabos, né? Vai estragar o assunto….

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      • Voltando pra pedir desculpas pelo tom da conversa. Acho que minha revolta com a política anda tão grande, que tenho descarregado a raiva no primeiro que cruza minha reta. Peço sinceras desculpas. Abraço.

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  3. Se sua teoria faz sentido, então poderíamos usar um fio paralelo como cabo de guitarra.
    Usamos o cabo blindado de instrumentos, CERTO? Então. O que a blindagem faz é exatamente a mesma coisa: a blindagem, ou terra, fica envolvendo a fase do circuito.
    Eu bato uma aposta com você se você conseguir eliminar os ruídos de aterramento apenas trocando os fios internos de uma guitarra humbucking.
    Sua teoria até parece boa, mas na prática a história é bem diferente!!!!

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  4. Tenho uma Fender Strato USA anos 90 que comprei de 2ª mão e por esta razão não posso afirmar se a captação é original ou se pode ter sido trocada. O problema está quando uso os 3 captadores individualmente (chave nas posições 1, 3 e 5) pois o nível de ruído aumenta consideravelmente e em contrapartida o ruído diminui quando uso os captadores combinados nas posições 2 e 4 (ponte+meio ou meio+braço). O problema persiste, embora atenuado, após revestira as cavidades e escudo com fita de cobre. Qual seria a mais provável causa? Os próprios captadores? Chave seletora ou potenciômetros? Talvez trocando toda a fiação e refazendo a parte elétrica substituindo inclusive a chave e os potenciômetros pode resolver ou atenuar ainda mais os ruídos?

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    • Ė imprudente fazer qualquer tipo de afirmação sobre esse assunto à distância, mas basicamente, como foi dito no texto, existem 2 tipos de humming: o gerado pelos single coils e o de aterramento ineficiente. O primeiro sempre existirá, com mais ou menos intensidade. O segundo pode ser atenuado ou eliminado com uma boa parte elétrica. Se você está em condições no momento, substitua os componentes por outros de boa qualidade, caso os atuais não sejam. Um reset na parte elétrica, com ligações planejadas, soldas e conexões de qualidade sempre faz milagres. Nas posições 2 e 4, o humming diminui porque, nessa situação específica, você tem duas bobinas atuando da mesma forma que um humbucking.
      Abraços.
      Edilson Hourneaux.

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  5. Excelente matéria, estou compartilhando! Aproveito para tirar dúvida sobre a bitola de fio que considera ideal para usar no circuito elétrico de guitarras, e se usa a mesma bitola para terra e vivo.

    Muito obrigado, e parabéns!

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  6. Muito bom seu artigo! Excelente, com explicações de elevado nível. As Gibson LesPaul Custom não são blindadas, correto? Observei que depois que troquei os captadores da minha, começou a fazer um ruído que não fazia antes. Pode ser esta questão do aterramento do novo captador na ponte? Obrigado pela atenção.

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  7. Muito bom esse artigo!
    Recentemente estou iniciando nesse mundo da luthieria e gosto muito de me informar antes de realizar meus trabalhos. Uma dúvida, eu andei pesquisando na internet e encontrei “tinta para blindagem de instrumentos” onde a mesma era aplicada nos slots dos captadores e ligação de fios. Me parece muito eficiente a blindagem com fita de cobre, será que se usar a tinta e a fita dá um melhor resultado na blindagem, e o mesmo com fios de cobre?

    Link da tinta: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-709793741-tinta-condutiva-para-blindagem-de-instrumentos-_JM

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  8. Olá, Edilson!
    Muito bom o seu texto, parabéns!
    Fiquei apenas com uma dúvida: nessas ultimas fotos das Gibson (standard e studio), é impressão ou a cavidade da parte elétrica está revestida com uma placa de metal? Se puder explicar como isso funciona e se pode ser feito em qualquer outra guitarra, agradeço desde já. Abraço!!

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    • Olá Gabriel!!! Aquela placa é colocada para interligar os aterramentos facilitando a instalação, ao invéz de soldar fios interligando cada potenciômetro. Repare que até o terra do jack esta soldado no meio da placa. Não é uma blindagem e sim uma ligação entre os terras, e teoricamente pode ser feito em qualquer instrumento. Um abç!!!

      Curtido por 2 pessoas

  9. Grande cara! Gostei muito deste artigo seu sobre o mito da blindagem, recentemente comprei duas Tagima K2 (chinesas) usadas do Kiko Lourreiro, pois acho a Stratocaster (Logicamente ‘estilizada’) mais bonita, uma delas pintei com branco puro automotivo+ Verniz Laca Nitrocelusose Bicomponente e ficou ótima, mais braços um com verniz fosco e outro brilhante, vou colocar um Dimarzio The Chopper + HUM Seymour Duncan Distortion Trembucker e na outra um Seymour Duncan Vintage Rails e HUM Ultradistortion M215K Kent Armstrong (por 30 reais), em uma Jackson Warrior Chinesa Satin Black 2 Seymours HUM (Screamin’ Demon Braço e ponte Parallel Axis Distortion… Fiz uma das ligações em Potenciômetros Spirit PUSH PULL (Achei que eles riscam demais a pista interna frequencial perto dos originais da Tagima (normais B500K e A500K) e Jackson (normais 2 x A500K), blindei com fita de cobre adesiva que vendem em luthierias totalmente as tampas, o nicho do humbucker, e somente lateral da cumbuca dos pots, não coloquei na parte onde fixa os pots e a chave… e ficou uma porcaria, sou muito meticuloso com solda (Best) ficou uma maravilha de soldagem, mas a blindagem não resolveu nada, como vc mesmo disse é um grande MITO, por que as grandes marcas não usam? Como vc mesmo colocou no artigo… usei todos fios de cobre polarizados de alto-falantes com bitola mínima, mas acho que vou usar de os fios bem finos, como dos captadores para entrelaçar entre os pots e aterrar… Pergunta: Vc acha que devo usar fios mínimos, de cobre ou prateados (aluminizados)? poderia criar um artigo sobre fios, seu blog é muito bakana, pois já me ajudou convencendo do mito da blindagem… e iria até fazer aquele melado de tinta grafite, hehehe… um franco abraço camarada Ed-il+som

    Curtido por 2 pessoas

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