Teste – Epiphone Les Paul Bullseye Zakk Wylde Signature

AI_SplashA primeira imagem de guitarra que tenho registrada na memória é de uma Les Paul, empunhada por Ace Frehley. E como acredito que as descobertas influenciam nossa vidas, posso dizer que, por isso, me considero um “lespaulzeiro”.

Paul "Ace" FrehleyA partir daí, todas as Les Paul passaram a chamar minha atenção.

Hoje, depois de 12 anos de luthieria e alguns milhares de instrumentos passados pela minha bancada, admito que minhas referências se expandiram bastante. Mas a visão de uma Les Paul ainda me causa uma comichão ali, entre o coração e o pulmão, e uma certa “malemolência”.

E foi exatamente isso que senti quando essa signature do Zakk Wylde deu entrada na minha oficina.

Inicialmente, o fato de não ser uma Gibson não significou absolutamente nada, pois sua imagem impõe muito respeito. Definitivamente, é um instrumento muito bonito e robusto, digno de “cabra macho”!

Instintivamente, comecei minha viagem insólita, desmontando, medindo, esmiuçando e desvendando os segredos.

Segundo Tony Bacon, no livro “The Les Paul Guitar Book”, Zakk se inspirou na identidade que Randy Rhoads criou com sua guitarra e decidiu trilhar o mesmo caminho. Apresentou à Gibson uma guitarra que tinha um desenho feito por um amigo. Era um espiral, como no filme “Um corpo que cai”, de Hitchcock. Mas Zakk acabou recebendo o alvo, ou a Bullseye.

Vertigo

Ainda segundo Bacon, a Bullseye foi lançada no mercado no ano de 1999.

Somente após 25 anos de parceria, a empresa se redmiu e lançou o modelo Vertigo. Na edição 220 da revista Guitar Player brasileira, Zakk conta mais detalhes.

A Bullseye deste teste é uma Epiphone, com corpo de mogno, braço de maple e escala de rosewood.

As tarraxas douradas são da marca Grover. A ponte, também dourada, é um modelo Locktone Tune-O-matic/Stopbar System, desenvolvido pela Epiphone.

O visual da guitarra é intimidador e exala muita autoridade. Repousada em minha bancada, pude ouvi-la me advertindo: “Ei, somente toque em mim se souber exatamente o que está fazendo”.

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O acabamento com verniz brilhante no top escavado gera um efeito bonito na pintura Bullseye, dependendo do ângulo que se olha. Essa versão da guitarra utilizou o creme intercalado com o preto, que dá um sabor vintage ao instrumento, diferente da Bullseye branco e preto, que tem um charme retrô.

O creme também está presente na parte traseira do corpo e do headstock. Atrás do headstock, está impressa a silhueta de Zakk, que já se tornou uma das identidades de seus instrumentos.

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O cover do tensor é de metal dourado, com o nome de Zakk grafado, o que, junto com o friso de 5 camadas (3 brancas e 2 pretas) no corpo e no headstock, normalmente presente nas Les Paul Custom da Gibson e Epiphone, dá um toque clássico ao instrumento.

Dsc05813A parte de trás do braço é apenas selada, deixando aparente o maple e oferecendo maciez ao toque da mão.

Seu shape é um “C” gordo, exigindo uma senhora pegada da mão da escala. Não me senti à vontade para frases shredders, com 3 notas por corda.

Não sei se estava sob influência da imagem de Zakk, mas as velhas pentas, com 2 notas por corda, saltaram mais redondas desse braço rechonchudo.

Diferente da versão da Gibson, que tem corpo de mogno e top de maple, o corpo e o top da Epiphone Bullseye são de mogno.

Encontrei pequenas imperfeições na instalação dos trastes jumbo, onde uns estavam levemente mais altos que outros.

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Isso exigiu um leve nivelamento de trastes, para garantir uma ação de cordas extremamente confortável e sem trastejamentos, para o jogo de cordas Elixir 010 utilizado. Na minha opinião, dadas as características do instrumento, um jogo de 011 cairia como uma luva…

Dsc05818Os captadores são EMG 81 na ponte e EMG 85 no braço. São pickups de extrema força e punch, ideais para metal e hardrock.

Só para termos uma ideia, o Seymour Duncan Invader, que é um dos captadores passivos mais fortes que conheço, possui 425 mV de saída. Eu anotei picos de 511 mV no EMG 81, na ponte.

Mesmo estando no canal limpo do amp, qualquer RÉ maior “cruncha” com estes captadores. São peças construídas para trabalhar melhor com overdrive e distorção.

A bateria de 9 volts fica acomodada numa caixa inteligentemente localizada na tampa da parte elétrica, acessada externamente, sem a necessidade de abrir a tampa da cavidade para efetuar a troca da bateria.

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Falando de parte elétrica, aqui vai meu único ponto negativo para o instrumento. A instalação elétrica poderia ser feita com mais capricho.

O instrumento em questão chegou em minha oficina com o captador da ponte falhando. Depois de muito trabalho rastreando problema, descobri 2 origens:

1- O fio do captador da ponte tinha um curto no ponto de solda do terra no potenciômetro de volume. Em outras palavras, quando foi feita a solda do terra do EMG 81 no potenciômetro de volume, o fio derreteu, permitindo o contato entre o positivo e o negativo.

2- A cavidade da parte elétrica é revestida com tinta condutiva. Além da falta de qualidade na aplicação da tinta condutiva, uma falha de instalação permitiu que um dos terminais do potenciômetro de volume encostasse na tinta condutiva, gerando um aterramento no sinal do captador da ponte.

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No meu entendimento, um instrumento com esta importância não deveria ter sua cavidade de elétrica revestida com material condutivo, assim como as Gibson não tem. Quando o instrumento recebe esse revestimento na fábrica, a falta de cuidado durante a instalação dos componentes é muito comum, gerando esse tipo de problema. Terminais de pontenciômetros encostando na superfície condutiva da cavidade é algo muito frequente.

Os componentes são de origem desconhecida e qualidade duvidosa. Novamente, diante da importância deste instrumento, os potenciômetros deveriam ser, no mínimo, um kit de CTS, para garantir a qualidade e longevidade da parte elétrica.

Quanto aos problemas encontrados, refiz a ligação elétrica e posicionei uma pequena tira de fita isolante logo abaixo dos potênciometros, isolando seus terminais da tinta condutiva.

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Pude notar, também, pequenas falhas na pintura e no verniz.

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No entanto, quero deixar bem claro que isso não diminui sua fucionalidade. Apesar destes pequenos deslizes, a guitarra continua sendo um instrumento e tanto.

Plugada no Rotstage CJ50 Plus, a guitara soa como uma fera enjaulada em busca de liberdade. Os captadores respondem muitíssimo bem ao overdrive do amp, com graves encorpados e firmes, que em nenhum momento embolaram ou perderam definição. Mesmo as notas mais agudas, executadas no final do braço, soaram com muita convicção. Não espere nada magro ou estridente. Tudo o que esse instrumento produziu soou gordo, encorpado, nítido e com um sustain absurdo!

Impossível tocar nessa guitarra e não tentar os harmônicos artificiais na sexta corda. Não consegui chegar perto da perfeição de Zakk, mas pude reproduzir algumas coisas bem legais. O EMG 81 é perfeito para esse tipo de harmônico!

No canal limpo do amp, a guitarra soou agressiva, com as notas batendo na cara de quem estivesse perto.

Com a chave seletora no meio, ligando os 2 captadores em paralelo, obtive um timbre mais percussivo e comprimido, ótimo para som limpo e palhetada híbrida (chicken pickin), que o próprio Zakk executa tão bem.

No geral, é um excelente instrumento. Após alguns poucos ajustes, a guitarra se amplia e transcende o conceito de bom instrumento. Com um pouco de hábito, a Les Paul Bullseye Zakk Wylde signature pode se transformar no instrumento principal de qualquer gig de rock.

 

Ficha técnica:

Corpo: mogno

Braço: colado, de maple com 22 trastes

  • Espessura: 23 mm no traste 1 e 26 mm no traste 12
  • Largura: 43 mm na pestana e 58 mm no traste 22

Escala: Rosewood com marcação trapezoidal de madrepérola

Ponte: Locktone Tune-O-matic/Stopbar System by Epiphone

Tarraxas: Grover – ratio 16:1

Medida de escala: 24,75 polegadas

Raio de escala: 12 polegadas

Captadores ativos:

  • EMG 81 na ponte com 16,7 K Ohms de resistência e picos de 511 mV
  • EMG 85 no braço com 17,2 K Ohms de resostência e picos de 388 mV

Controles: 1 volume e um tom para cada captador

Chave seletora: toggle, de 3 posições.


Este teste foi realizado com o apoio da Rotstage – amplificadores valvulados.

Visite o site. Vale a pena!

www.rotstage.com


 

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2 comentários sobre “Teste – Epiphone Les Paul Bullseye Zakk Wylde Signature

  1. Bem, este artigo endossa a extrema importância de um luthier meticuloso como o Edilson em delinear pontos de erros na fabricação desta guitar, por isso retirei a fita adesiva de cobre no solo dos potenciômetros, para evitar curtos devidos ao rebites do pots poderem encostar e abrir curtos… pensei desta mesma ideia de colocar uma fita adesiva isolante isolando os 3 lides dos pots, mas resolvi foi tirar a fita de cobre do solo da cavidade da ligação permitindo ser cético a importância da blindagem como da limpeza de bicos injetores de veículos automotivos (A não ser quando raramente entopem), aí busquei no google e encontrei o artigo do Edilson (Dono deste blog) que elucido bem a superstição da blindagem, por que as grandes marcas não fazem em seus modelos tops? Fica a pergunta: Mestre Jedy Edilson, as chaves e potenciômetros da marca ALPHA, SPIRIT ou CTS (que já ouvi falar mal) GIBSON quais as diferenças materiais presentes, os da Spirit ou genéricos que me venderam achem que arranham demais a pista perto de outros, como originais da Jackson e Tagima de ótimo deslize sem ruídos quando desligados em nossos ouvidos, ou seja sem ainda serem montados… Matéria muito bem esquadrinhada desta Epiphone, vejam quanto deslize dos fabricantes em erros primários, se não me engano a Epiphone é segunda linha, ou divisão da lendária GIBSON…

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    • Fala Marcelo.
      Legal que vc gostou do blog. Já assinou?

      Todos esses pots que vc citou funcionam bem no começo. Os Gibson e CTS têm maior durabilidade.
      Já peguei Alphas excelentes, sem arranhar, com movimento macio. Também já peguei pots CTS e Jackson horríveis. É um pouco de sorte. Mas a porcentagem de problemas em marcas baratas é maior.
      Abraços!

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